Pequenas reticências…

Foi assim:

Ele, tímido; ela, vívida

Ele, lúcido; ela, mágica

Ele, cômico; ela, trágica

Ele, lucro; ela, dívida

 

 

Ele, certeza; ela, dúvida

Ele, sílaba; ela, frase

Ele, único; ela, quase

Ele, bálsamo; ela, ferida

bailarina (1)

 

Era uma vez um tempo em que os sonhos e desejos se realizavam como mágica, o mundo era repleto de reis e rainhas que governavam com justiça seus enormes reinos e tinham filhos corajosos e filhas mais lindas que as estrelas.

Certo rei e certa rainha tinham filhas muito belas. A caçula, porém, era a mais bela dentre todas. O reino desse rei ficava próximo a um grande bosque encantado, onde, diziam, viviam ogros enormes, fadas miudinhas e gnomos travessos. Nesse bosque, havia uma lagoa.

Em dias de verão, as princesas brincavam em volta dessa lagoa, pois ali o ar era fresco e puro. A caçula estava sempre com seu brinquedo favorito: uma bolota de ouro maciço, que, quando entendiada, a princesa jogava para o alto e pegava com a mesma mão.

Crédito: Cassia Naomi

Crédito: Cassia Naomi

Certo dia, estava a princesa jogando a bola de ouro para cima, quando um pássaro a assustou, fazendo com que ela deixasse a bolota cair na lagoa. Pobre princesa! Pôs-se logo a chorar pelo ocorrido, pois deu por perdido o seu brinquedo, já que a lagoa era funda e escura. Começou a chorar cada vez mais forte, e mais, e mais, tanto que ninguém era capaz de consolá-la.

De repente, ela ouve uma voz desconhecida:

— O que aconteceu com tão linda princesa?

Quando a princesa buscou o dono da voz, deu de cara com um sapo com a cabeça pra fora da lagoa.

— Ah, senhor sapo. Choro pela minha bolota de ouro que caiu na lagoa.

— Na lagoa? Então não tem porque chorar… Posso te ajudar a recuperá-la. Mas o que ganho com isso?

— O que quiser, querido sapo — respondeu a princesa precipitada. — Minhas joias, meus brinquedos, minha tiara. O que quiser…

Então o sapo, cheio de astúcia, respondeu:

— Não quero suas joias, nem seus brinquedos. E tampouco sua tiara. Quero sua companhia: promete que, se eu trazer sua bola de ouro, brinca todos os dias comigo, me põe para comer ao seu lado na mesa e me deixa comer no seu prato de ouro e dormir na sua cama macia?

— Claro que eu prometo! — disse ela.

Entretanto, quando respondeu a princesa pensou: “Sapo tolo, não sabe que não pode morar comigo em meu castelo!? Não é humano!”.

Mas nem acabou de ter esses pensamentos, a princesa viu o sapo desaparecer na lagoa. Pouco tempo depois, ele retornou com sua bola de ouro na boca, reluzente. A princesa a apanhou e correu para o castelo, pulando de alegria.

Não adiantou o sapo gritar para que ela o esperasse.

No dia seguinte, a princesa acordou e foi tomar seu café da manhã no salão real. Não havia tocado em seu mingau quando ouviu um barulho estranho vindo de fora: splash, ploc, splash, ploc. Quando o barulho parou, ela ouviu uma voz dizendo:

— Princesa, sou eu! O sapo da lagoa a quem você prometeu companhia. Abra a porta, por favor.

A moça se recusava a ir abrir a porta. Percebendo sua reação, o rei perguntou:

— O que é isso?

— Ah, papai — respondeu a princesa. — É um sapo da lagoa do bosque. Ele me ajudou ontem, recuperando minha bola de ouro, e me fez prometer que eu cuidaria dele. Achei que ele jamais chegaria até aqui. Entretanto… está aí, cobrando a promessa.

Para surpresa dela, o rei ordenou:

— O que se prometeu deve ser cumprido. Abram a porta!

O sapo então entrou, sentou-se ao lado dela na mesa e comeu do seu prato de ouro. A princesa, vendo aquilo, sentiu-se enjoada e não comeu mais nada.

— Estou satisfeito — disse o sapo. — Preciso descansar. O caminho da lagoa até aqui é longo para um sapo do meu tamanho. Por favor, princesa, prepara sua cama macia para mim?

Claro que a princesa recusou, mas o rei logo interveio:

— Não despreze hoje quem te ajudou ontem, minha filha. Vá e prepare a cama para ele.

Com um nojo enorme, a princesa apanhou o sapo e o levou para seu quarto. Arrumou sua cama, colocou o melhor lençou e deitou-se com ele.

O sapo então pediu:

  — Deixe-me deitar em seu travesseiro…

A princesa então se aborreceu. Apanhou o sapo sem nojo e sem medo e o arremessou contra a parede.

Ao cair no chão, o sapo já não era sapo, mas um lindo príncipe que havia sido enfeitiçado por uma bruxa. Apaixonado pela princesa, ele a pediu em casamento.

No dia seguinte, uma belíssima carruagem com dez cavalos veio buscar o príncipe. Guiada por Enrique, o escudeiro do príncipe, ela era toda enfeitada de ouro e pedras preciosas. Enrique era fiel, e havia ficado muito triste quando o seu amo foi amaldiçoado. Tanto que ele colocou, em volta do peito, três faixas de ferro para que, quando suspirasse de tristeza, se lembrasse do motivo.

Quando principe e princesa iam em direção ao novo reino, eles ouviam, ao longo do caminho, ferro se rompendo. Então o príncipe gritou:

— Enrique, a carruagem está se rompendo!

— Não, meu amo — respondeu o escudeiro. — São as faixas de ferro em meu peito, que agora não aguentam tamanha alegria em ver o senhor são e salvo.

Até chegar ao reino, ainda ouviram dois estalos. Mas não se preocuparam: eram as faixas de ferro caindo do peito de Enrique, porque o príncipe estava livre e feliz. E assim foi para todo o sempre.

A-Lenda-do-Paraiso-Terrestre

A Lenda do Paraíso Terrestre, de Daniel Munduruku

Há muito e muito tempo, a tribo da grande nação indígena Kaiapós habitava um mundo sem céu. Por isso, não existia também Sol, nem Lua, nem estrelas, cometas, arco-íris, pássaros. Aqueles habitantes se alimentavam apenas de mandioca e pequenos animais, mas nunca tinham visto, por exemplo, um peixe, pois não havia rios por ali. Tampouco comiam frutas, pois não havia florestas, sequer arbustos e pequenas moitas. Era um mundo vazio.

Um dia, um jovem índio estava caçando quando avistou sua presa: um tatuzinho amendrontado. Percebendo a presença do caçador, o animal fugiu, e quanto mais corria, mais o jovem corria atrás. Sem entender, ele viu que o pequeno tatu crescia a cada passo, se tornando um grande animal que, embora grande, continuava amendrontado.

Cansado de correr, já percebendo a proximidade do caçador, o grande tatu cavou rapidamente a terra seca e escura abaixo deles, abrindo um grande buraco, no qual desapareceu.

À beira da cova, o índio ficou observando para se certificar que o animal fugira mesmo. Não aguentando sua curiosidade, decidiu descer pelo buraco e, com surpresa, percebeu que ao final do caminho havia um ponto luminoso. Sem sinal do tatu, resolveu seguir aquele ponto de luz.

Por muitos anos, aquele jovem índio se lembraria do que viu quando chegou ao final do túnel. Viu aos poucos o ponto de luz se transformar em uma grande abertura, e um novo mundo se revelou: um mundo com um céu tão azul que os olhos acostumados com a escuridão ardiam; e um Sol tão luminoso que o índio temeu se queimar por um instante; e um lindo arco-íris, cujas cores estavam nas penas de algumas aves e nas asas de borboletas que enfeitavam o céu. Uma grande mata crescia nas margens de um grande rio, de onde pulavam peixes de vários tamanhos e cores. Perto dele, alguns animais caminhavam sem medo, como tartarugas, macacos, capivaras e préas.

O jovem índio ficou admirando aquele novo mundo, e notou que o Sol se movia, fugia dele, até desaparecer. A tristeza tomou conta do jovem, que pensou que tudo aquilo havia acabado com o Sol. Mas seu deslumbramento voltou assim que viu surgir no céu uma grande pedra branca, bem redonda e brilhante. Era a Lua que surgia com mais um milhão de estrelas que piscavam, e brilhavam, e iluminavam o céu e a terra. Algumas chegavam bem perto dele, como se fossem pequenos insetos luminosos.

Correndo mais rápido do que nunca, o índiou voltou à aldeia para contar sobre aquele novo mundo. O pajé, homem mais respeitado na tribo, autorizou que todos seguissem aquele caminho aberto pelo tatu. Os índios foram, um a um, descendo por uma longa corda até pisar no chão daquele que seria seu novo lar, o Mundo Novo.

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Sua-Distribuição-Geográfica-e-HabitatEla janta

contente, canta

se faz de santa

e vai dormir

usando uma manta.

Poeminha de Marcia Paganini

 

 

Era uma vez uma floresta com dois caminhos, muito grande e cheia de mistérios. De um lado dessa floresta, morava uma linda menina com sua mãe. Seu nome ninguém sabia, pois todos a chamavam de Chapeuzinho Vermelho por causa de uma capinha com capuz vermelho que ela usava. Quem fez a capinha para ela? Sua avó, que morava do outro lado da floresta, perto do rio, com seus bichos de estimação.

Certo dia, a mãe de Chapeuzinho pediu para que a menina levasse uma cesta com bolos e geleias para a vovozinha que estava doente. Claro que Chapeuzinho sequer relutou: vestiu seu capuz e colocou seu sapatinho.

— Mas cuidado — aconselhou a mãe. — Vá pelo caminho mais claro, porque o outro é muito perigoso.

Chapeuzinho concordou com a cabeça e acenou de longe, dizendo que não tardaria em voltar.

— E não fale com estranho! — gritou por último a mãe.

E lá se foi ela, cantando e pulando com a cesta nas mãos, parando aqui e ali para pegar uma flor ou admirar uma borboleta.

No meio do caminho, Chapeuzinho foi notada por um lobo, que estava faminto há dias. Ele surpreendeu a menina com sua conversa fiada, assim:

chapeuzinhovermelho

— Olá, menininha. Que lindo capuz você tem!

— Obrigada!

— Para onde vai com essa cesta tão cheirosa?

— Para a casa da vovó, que está doente.

— Ah, a vovó. Excelente pessoa ela. Vai pelo caminho mais escuro?

— Não, não. Vou pelo mais claro.

— Mas por quê?! Vá pelo caminho mais escuro, que é muito mais curto e rápido.

Claro que isso era mentira. O lobo, que poderia abocanhar a pobre menina ali mesmo, era guloso: queria ela de sobremesa após abocanhar a vovó. Por isso aconselhou Chapeuzinho a ir pelo caminho mais escuro, que é mais longo e mais cheio de curvas.

Chapeuzinho, inocente, esqueceu-se dos conselhos da mãe, e seguiu pelo caminho mais escuro. O lobo não poupou esforços para chegar rápido à casa da vovó.

  Chegando lá, bateu na porta. TOC TOC TOC. Uma vozi fraquinha perguntou lá de dentro:

— Quem é?

— Sou eu, vovó — disse o lobo disfarçando a voz. — Sua netinha.

— Entre, minha querida. Está destrancada.

Mal entrou e o lobo se atirou para cima da vovó, engolindo-a sem mastigar. Pegou no armário algumas roupas e se deitou na cama para esperar Chapeuzinho.

Não demorou muito e TOC TOC TOC.

— Quem é? — perguntou o lobo disfarçando a voz.

— Sou eu, vovó. Sua netinha.

— Entre, minha querida. Está destrancada.

Chapeuzinho entrou e foi até a cama. Não percebeu que a vovó estava estranha. Disse que a mãe havia preparado alguns bolos e geleias, e que a cesta estava lotada de guloseimas.

— Obrigado, minha querida. Chegue mais perto. Deixe-me ver como cresceu!

— Vovó, que braços grandes a senhora tem!

— São pra te abraçar melhor, minha netinha.

— E que orelhas grandes a senhora tem!

— São pra te ouvir melhor, minha netinha.

— Vovó, que braços grandes a senhora tem!

— E como são grandes os seus olhos!

— Pra te ver melhor!

— Vovozinha, que boca grande a senhora tem!

— É pra te comer, menina!!!

E se jogou sobre Chapeuzinho Vermelho, que correu pela casa gritando por socorro. Por causa da camisola que vestia, o lobo mal conseguia correr. Todo atrapalhado.

Um lenhador que passava por ali ouviu os gritos de Chapeuzinho e, como conhecia a vovó que ali morava, correu para casa a fim de ajudar. Chegando lá, deu com o lobo cercando a pobre menina. Não pensou duas vezes: acertou a cabeça do lobo com o cabo do seu machado.

Sãos e salvos, acharam que tinham perdido para sempre a querida vovó. Que nada! Viram as mãozinhas dela se mexendo na barriga do lobo. O lenhador então abriu a barriga do monstro e se surpreendeu com a senhora que estava lá, inteira, esperando para ser salva.

A floresta ficou um bom tempo sem ver o focinho do lobo mau. O lenhador ganhou um belo café da tarde pela ajuda. Vovovozinha melhorou da gripe e voltou a cuidar da horta e de seus bichinhos. E Chapeuzinho nunca mais deixou de seguir os conselhos de sua mãe. No fim, todos viveram felizes em volta daquela floresta cheia de mistérios.

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