Pequenas reticências…

Archive for Janeiro 2011

Muita gente pensa que, se você gosta de futebol, ou qualquer outro esporte, não pode gostar também de ler. Essa é uma mentira deslavada. Veja, por exemplo, o Mauricio de Sousa, que uniu futebol e leitura. Como? Criando dois personagens que homenageiam o nosso futebol para serem protagonistas das histórias em quadrinhos. Um deles é o Pelezinho, inspirado em Edson Arantes do Nascimento, o nosso Pelé. Pelezinho surgiu em 1976. Faz tempo, né? Nos quadrinhos, Pelezinho vive várias aventuras, que, quem sabe, o próprio Pelé tenha vivido na sua infância. Já o outro, Ronaldinho Gaúcho, é mais jovem: surgiu em 2006. Dentucinho, tem cabelos iguais ao do jogador e vive de uniforme do Brasil. Tomara que ele se dê bem com o Cascão, porque Ronaldinho é gremista, enquanto Cascão é corintiano roxo!
Bom, isso era só para mostrar que futebol e leitura podem, sim, jogar no mesmo time.

A alegria seria total!

Demos duro desde o começo do ano, embora alguns dos alunos esquentassem a cabeça com o mico que pagariam. Mas então caiu a ficha deles, e viram que não seria vergonha alguma encenar a peça. Então demos o sangue: decoramos falas, engolimos sapos, fizemos cenários, trememos igual vara verde e rachamos o bico dos momentos “falha nossa”.

Agora, estávamos ali, cada macaco no seu galho, esperando a hora H. Ali, atrás das cortinas, já havíamos perdido o medo de não dar certo. Se a vaca fosse pro brejo, que fosse. Não tínhamos mais a pulga atrás da orelha. Nos divertimos muito durante os ensaios, era isso que importava. Esperávamos que a alegria fosse total, e percebemos ali, atrás das cortinas, que ela já era.

Uma história muito antiga, mas muito atual, recontada.

 

Um velho e um menino caminhavam contentes por uma estrada. Vinham da vila, onde foram prosear com alguns amigos e estavam voltando para casa. Um burrinho seguia junto do velho e do menino, puxado pelo cabresto.

Pelo caminho, toparam com dois homens que, ao mirarem o velho e o menino andando ao lado do burro, comentaram:

— Assunte isso, meu compadre? Não é um despropósito um burro fornido desse ser puxado pelo velho, que vem caminhando em vez de montar no bicho?

— Se é, compadre! Cada coisa, viu!

O velho e o menino ouviram o comentário e, assim que sumiram da vista dos homens, pararam. Então, o menino ajudou o velho a montar no burro. Satisfeitos, seguiram viagem, sendo que o velho ia aboletado no lombo do animal e o menino puxava o cabresto.

Mais adiante, ao passar por uma casa onde a dona estava na janela, ouviram:

— Marido, venha ver que doideira! O velho no maior sossego em riba do burrico e o pobre do moleque rompendo a pé! Que folga!

O velho olhou para o menino e o menino olhou para o velho. Longe da vista da mulher, o velho apeou do burro para que o menino trepasse na sela. Continuaram a viagem, agora um pouco preocupados.

Não demorou muito, encontraram uma senhora com sua neta, que foi logo dizendo:

— Que pouca-vergonha! Um velho fracote andando a pé enquanto um menino sacudido como o quê vem em cima do burro. Onde o mundo vai parar, meu Deus?!

No mesmo instante, o velho subiu também no burro, e seguiram os dois montados, silenciosos. Não demorou muito, encontraram um vigário e o sacristão. Nada satisfeito, o vigário comentou alto:

— Misericórdia! Que pecado! Pobrezinho do animal! Tão frágil, tendo de levar dois gaudérios nas costas. É o fim dos tempos!

O sacristão concordou, acenando com a cabeça.

Desanimados, velho e menino desceram do burro e saíram carregando o animal nas costas, pois acharam que assim o povo sossegaria. Que nada! As pessoas que passavam zombavam dos dois, dizendo:

— Olhem só: três burros! Um sendo carregado pelos outros dois.

Quando, enfim, chegaram em casa, o velho se sentou para descansar. Pensando no dia, suspirou profundamente e disse para o neto:

— Tudo isso é bom pra gente aprender.

— Aprender o quê, vô?

— Aprender essa lição, meu neto: já é complicado demais matutar com as próprias ideias, imagine matutar com as ideias dos outros. Como já se dizia: “Quem quer agradar a todos, por fim não agrada ninguém!”

Para Mariana Daré

 

Um amor que fosse mito

um amor que tivesse recebido

todas as graças do Olimpo.

 

Um amor que fosse grande

um amor que pudesse tudo:

seria uma moeda para Caronte

seria de Perseu o escudo

voo de Pégaso no horizonte.

 

Um amor que fosse humano

(breve flor cheirosa e tenra)

e que talvez fosse divino

(horizonte infinito).

Um amor que fosse meu,

sob o olhar de um deus,

de Baco ou de Zeus

um olhar,

um amor,

sem adeus.

 

Um amor que fosse mito

um amor que tivesse recebido

a graça de um amor humano

sonho de um deus adormecido.

Na floresta, há um menino
que corre a procura
de gnomos pequeninos,
de bruxas obscuras.

Depois da meia-noite,
vira abóbora (coitado),
vira sapo que espera
da donzela o beijo dado.

A princesa aparece
e ao vê-la se apaixona.
Pensa ser Branca de Neve,
ou Aurora, até Fiona.
Não era nenhuma dessas,
nem princesa: era plebeia,
mas seu beijo funciona.

No deserto, na secura,
quase morre, sente sede;
mas o pequeno amigo surge,
sua água oferece.
Tão loiro que cativa,
fala de planetas bem distantes,
fala de rosas, de raposas,
e de cobras e elefantes.
Mas despede quando a noite
vence o dia com seu breu,
o menino vai-se embora:
o Pequeno Príncipe conheceu.

Pelos mares e oceanos,
nosso menino navegou.
Viu sereias, monstros marinhos,
em Atlantis mergulhou.
Encontrou cidades perdidas,
navegou em mais de mil ilhas,
até o Olimpo ele chegou.

Na Europa se entreteve,
emoções ele viveu:
bateu papo com Cervantes,
enfrentou moinhos gigantes,
para Shakespeare, foi Romeu.
Deu madeira pro Gepeto
fazer boneco (não espeto),
e ensinou o Grilo a falar.
Sua maior emoção
foi conhecer Peter Pan,
que o levou para voar.

Então, em casa, cerrou os olhos,
fechou o livro e sorriu.
Na capa não tinha seu nome,
mas mundos distantes descobriu:
as histórias são seus sonhos;
para vivê-las, então, dormiu.
Ler é sonhar de olho aberto;
sonho é um livro que se abriu.

Tem festa naquela Casa
veja a movimentação:
tem negros trazendo tambores
e loiros, empolgação;
os amarelos trazem flores
índios fazem canções.
As lembranças de uma história sofrida
todos eles cantarão
E cantarão sobre sementes coloridas
de flores que colhidas serão.

Tem festa naquela Casa
feliz de quem o som ouviu
do povo entrando e se misturando
na casa chamada Brasil.

Joana tinha um porquinho de estimação chamado Pipo. Um dia, Pipo sumiu. A menina procurou o bicho em todos os cantos do quintal. Desanimada, estava perdendo as esperanças de encontrá-lo.

De repente, ela viu alguma coisa se mexendo atrás das folhagens. Ao olhar o que era, teve uma surpresa! Lá estava Pipo brincando na lama, na maior felicidade!