Pequenas reticências…

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Era uma vez, há muito tempo, um príncipe belíssimo, considerado o homem mais bonito que já existiu. Mas o que ele tinha de beleza, tinha também de arrogância: tratava mal todos os que vinham até ele pedir ajuda.

          Numa noite de chuva e ventania, uma velha senhora bateu na porta de seu castelo pedindo abrigo. Em troca, ela lhe daria uma linda flor. Ele ficou tão horrorizado pela aparência da pobre senhora e com seu pedido que a expulsou de suas terras.

Ela se foi, mas antes olhou bem nos olhos azuis do príncipe e disse:

— Tu não serás mais belo, príncipe. Não antes de conhecer o verdadeiro amor. Tu serás uma fera até que alguém o ame de verdade. E que isso aconteça antes de cair a última pétala desta rosa vermelha. Se ela cair antes de conheceres o amor, então serás fera para sempre.

E desapareceu no temporal.

Imediatamente, o príncipe se transformou em uma fera horrível e percebeu que para ele não haveria mais esperança: quem amaria uma fera tão feia? Como conseguiria um beijo de amor verdadeiro?

Não longe dali, em uma pequena vila de camponeses, uma linda moça, chamada Bela, morava com seu pai. Ela era querida por todos, tanto pela beleza como por sua humildade e simpatia.

O pai de Bela era comerciante e,  naquele dia, saiu com alguns produtos para vender na aldeia vizinha. Ele encheu sua carroça e pegou a estrada. Anoiteceu, e nem sinal do comerciante voltar para casa. A moça ficou muito preocupada. Mal sabia ela que o pai havia se perdido na floresta, indo procurar abrigo em um castelo que parecia abandonado.

Foi ali que a Fera o aprisionou.

No dia seguinte, Bela saiu à procura do pai. Seguindo os rastros das rodas, a moça chegou até o castelo e encontrou a carroça vazia, sem sinal dele.

Ela resolveu, então, entrar no castelo e o encontrou o pai acorrentado. O homem suplicou que ela fugisse o mais rápido que pudesse, pois ali vivia um monstro. Ela, porém, disse que não sairia sem ele e, enquanto tentava soltar as correntes, a Fera apareceu.

— Por favor, solte meu pai! Ele está cansado e doente. — pediu a pobre moça.

— Vocês invadiram meu castelo! — gritava a Fera. — Merecem ficar presos!

— Eu fico no lugar dele. Deixe-o ir. — suplicou, chorando.

A Fera assim fez: soltou o pai, mas manteve Bela prisioneira.

Assim a moça passou a viver no castelo. Fazia suas refeições na mesa com a Fera, lia na biblioteca, passeava pelo jardim, sempre sob os olhares atentos do monstro. Com o passar do tempo, a Fera foi mudando, tornando-se menos cruel, cuidando muito bem de Bela, que começou a se encantar pelo monstro, e a ver nele um amigo.

Mas a saudade de casa era grande. Então Bela, um dia, pediu para visitar o pai. A Fera, mesmo temendo que ela nunca mais voltasse, não negou. Deixou que ela fosse, tendo apenas como garantia a promessa de que a moça voltaria.

Bela passou muitos dias com seu pai. E numa noite, teve um sonho impressionante: ela viu a Fera no jardim do castelo, fraco, quase morrendo.

No dia seguinte, antes de amanhecer, Bela voltou correndo para lá. Ao chegar, avistou a Fera desmaiada no jardim, como em seu sonho.

O monstro parecia mesmo muito fraco. Havia sido tomado por uma grande tristeza, acreditando que Bela não voltaria mais. Ficou muitos dias sem comer ou beber.

Bela então percebeu que não queria que ele morresse. E, chorando, suplicou:

— Não morra! Por favor, não morra. Eu não posso viver sem você… Eu… Eu te amo.

Nesse momento, a profecia da velha se cumpriu: a última pétala da rosa vermelha caiu. Era tarde demais.

Mas a tristeza da moça durou pouco. Com as palavras de Bela, a Fera foi se enchendo de luz, e se transformou novamente no belo príncipe.

O castelo se encheu de vida de novo e o príncipe pôde dizer:

— Agora você me vê como realmente sou.

— Eu já havia visto. — respondeu Bela, beijando o príncipe.

Foi então que  começaram os preparativos para o casamento de Bela com o príncipe.

Todo o  vilarejo foi convidado para a grande festa.

A Bela e a Fera se casaram e foram felizes para sempre.