Pequenas reticências…

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Era uma vez uma floresta com dois caminhos, muito grande e cheia de mistérios. De um lado dessa floresta, morava uma linda menina com sua mãe. Seu nome ninguém sabia, pois todos a chamavam de Chapeuzinho Vermelho por causa de uma capinha com capuz vermelho que ela usava. Quem fez a capinha para ela? Sua avó, que morava do outro lado da floresta, perto do rio, com seus bichos de estimação.

Certo dia, a mãe de Chapeuzinho pediu para que a menina levasse uma cesta com bolos e geleias para a vovozinha que estava doente. Claro que Chapeuzinho sequer relutou: vestiu seu capuz e colocou seu sapatinho.

— Mas cuidado — aconselhou a mãe. — Vá pelo caminho mais claro, porque o outro é muito perigoso.

Chapeuzinho concordou com a cabeça e acenou de longe, dizendo que não tardaria em voltar.

— E não fale com estranho! — gritou por último a mãe.

E lá se foi ela, cantando e pulando com a cesta nas mãos, parando aqui e ali para pegar uma flor ou admirar uma borboleta.

No meio do caminho, Chapeuzinho foi notada por um lobo, que estava faminto há dias. Ele surpreendeu a menina com sua conversa fiada, assim:

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— Olá, menininha. Que lindo capuz você tem!

— Obrigada!

— Para onde vai com essa cesta tão cheirosa?

— Para a casa da vovó, que está doente.

— Ah, a vovó. Excelente pessoa ela. Vai pelo caminho mais escuro?

— Não, não. Vou pelo mais claro.

— Mas por quê?! Vá pelo caminho mais escuro, que é muito mais curto e rápido.

Claro que isso era mentira. O lobo, que poderia abocanhar a pobre menina ali mesmo, era guloso: queria ela de sobremesa após abocanhar a vovó. Por isso aconselhou Chapeuzinho a ir pelo caminho mais escuro, que é mais longo e mais cheio de curvas.

Chapeuzinho, inocente, esqueceu-se dos conselhos da mãe, e seguiu pelo caminho mais escuro. O lobo não poupou esforços para chegar rápido à casa da vovó.

  Chegando lá, bateu na porta. TOC TOC TOC. Uma vozi fraquinha perguntou lá de dentro:

— Quem é?

— Sou eu, vovó — disse o lobo disfarçando a voz. — Sua netinha.

— Entre, minha querida. Está destrancada.

Mal entrou e o lobo se atirou para cima da vovó, engolindo-a sem mastigar. Pegou no armário algumas roupas e se deitou na cama para esperar Chapeuzinho.

Não demorou muito e TOC TOC TOC.

— Quem é? — perguntou o lobo disfarçando a voz.

— Sou eu, vovó. Sua netinha.

— Entre, minha querida. Está destrancada.

Chapeuzinho entrou e foi até a cama. Não percebeu que a vovó estava estranha. Disse que a mãe havia preparado alguns bolos e geleias, e que a cesta estava lotada de guloseimas.

— Obrigado, minha querida. Chegue mais perto. Deixe-me ver como cresceu!

— Vovó, que braços grandes a senhora tem!

— São pra te abraçar melhor, minha netinha.

— E que orelhas grandes a senhora tem!

— São pra te ouvir melhor, minha netinha.

— Vovó, que braços grandes a senhora tem!

— E como são grandes os seus olhos!

— Pra te ver melhor!

— Vovozinha, que boca grande a senhora tem!

— É pra te comer, menina!!!

E se jogou sobre Chapeuzinho Vermelho, que correu pela casa gritando por socorro. Por causa da camisola que vestia, o lobo mal conseguia correr. Todo atrapalhado.

Um lenhador que passava por ali ouviu os gritos de Chapeuzinho e, como conhecia a vovó que ali morava, correu para casa a fim de ajudar. Chegando lá, deu com o lobo cercando a pobre menina. Não pensou duas vezes: acertou a cabeça do lobo com o cabo do seu machado.

Sãos e salvos, acharam que tinham perdido para sempre a querida vovó. Que nada! Viram as mãozinhas dela se mexendo na barriga do lobo. O lenhador então abriu a barriga do monstro e se surpreendeu com a senhora que estava lá, inteira, esperando para ser salva.

A floresta ficou um bom tempo sem ver o focinho do lobo mau. O lenhador ganhou um belo café da tarde pela ajuda. Vovovozinha melhorou da gripe e voltou a cuidar da horta e de seus bichinhos. E Chapeuzinho nunca mais deixou de seguir os conselhos de sua mãe. No fim, todos viveram felizes em volta daquela floresta cheia de mistérios.

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Conto dos irmãos Grimm, recontado por Marcia Paganini

Era uma vez uma grande floresta onde morava um lenhador com sua mulher e seus dois filhos, João, o mais velho, e Maria, a mais nova. A família morava em uma pobre cabana, cercada de velhas árvores e sem nenhuma vaca para dar leite ou galinha para dar ovos.  A mulher, para não ter de dividir a pouca comida com as crianças, pediu uma noite ao marido:

— Leve Maria e João amanhã para a floresta e dê um pedaço de pão a cada um deles. Deixe-os lá, onde quem sabe alguém possa encontrá-los e dar uma vida melhor que essa para eles.

O marido ficou indignado com isso, e disse que não iria entregar os filhos à própria sorte, temendo que eles fossem devorados por algum animal selvagem. Mas a mulher insistiu:

— Se não o fizer, vamos todos morrer de fome.

Tanto insistiu que o homem acabou obedecendo.

Entretanto, as crianças, que não conseguiam dormir por causa da fome, ouviram tudo. Maria começou a chorar e João a acalmou, dizendo que tinha um plano. E realmente tinha: foi lá fora, onde a lua brilhava linda como diamante, e pegou dezenas de pedrinhas brancas que ficavam visíveis à noite.

No dia seguinte, o pai os acordou cedo, deu um pão para um e os levou para o lugar mais fundo da floresta. Chegando lá, fez uma fogueira e disse que pegaria mais lenha. Porém, não voltou.

Maria começou a chorar mais uma vez e João a acalmou mostrando o caminho por onde vieram:

— Veja, Maria. As pedrinhas: elas brilharão com o luar e voltaremos para casa!

Assim que anoiteceu, os dois foram seguindo o rastro até chegarem à pobre cabana. O pai e a madrasta ficaram surpresos: como eles haviam conseguido! A madrasta não desistiu:

— Leve-os amanhã mais longe. Você deve tê-los deixado perto demais.

João, ouvindo mais uma vez a conversa, teve outro plano: pegaria um pão e faria um rastro novamente. E foi assim mesmo que aconteceu: enquanto o pai levava os dois para o fundo da floresta, João deixava migalhas de pão para marcar a trilha.

Abandonados pelo pai, João e Maria começaram a procurar a trilha de pão, mas para o azar deles alguns passarinhos haviam comido todos os pedacinhos, não sobrando nenhum.

A pobre Maria chorava desesperada agora, sabendo o que os esperava. João, então, decidiu começar a procurar a trilha ele mesmo. Andaram, e andaram, e andaram por muito tempo. Não encontraram a pequena cabana dos pais, mas outra, com paredes de chocolate, portas de pão de ló, janelas de vidro feito de açúcar, teto de brigadeiro, tapete de maria-mole e todo enfeitada com balas, jujubas, gominhas e docinhos .

Cansados e com fome, os dois irmãos avançaram sem pensar sobre a casa, começando a devorar tudo que encontravam. Maria abocanhou um pedaço da parede enquanto João se deliciava com um pedaço da janela. Estavam tão ocupados que não perceberam a porta se abrindo e uma velhinha saindo de dentro da casa.photo-1

— Nham, nham, ora, ora, quem minha casa devora? — perguntou com voz melosa a velha.

As duas crianças pediram desculpas, mas explicaram a situação. A velhinha disse que estava tudo bem, mas que, se quisessem, poderiam entrar e tomar um copo de suco ou um chá. As crianças aceitaram. Lá dentro a casa não era feita de doces, nem tinha vidros brilhantes e limpos e paredes saborosas. Ao contrário: as paredes eram escuras feito fumaça e os vidros quebrados. Não tinha o doce cheiro de chocolate e baunilha, e sim um cheiro podre, de coisa queimando. E a doce velhinha se revelou uma mulher amarga, cheia de cicatrizes, sem os dois olhos e com ar maligno. Era uma bruxa!

As crianças não tiveram nem chance de fugir. A bruxa as agarrou e prendeu cada uma em uma gaiola.

— Você — disse ela apontando pra João. — vai engordar para que eu possa te comer. E você, menina, vai cozinhar, limpar e lavar.

E os dias que se seguiram foram assim: João preso e Maria trabalhando. Tudo que a menina cozinhava, João tinha que comer. E todo o dia a bruxa se aproximava dele e pedia um dedo para ver se ele estava engordando. Com ela não tinha olhos, João estendia um ossinho de galinha. E a bruxa pedia que Maria cozinhasse mais e mais.

Quatro semanas depois, cansada de esperar, a bruxa mandou Maria pegar água para cozinhar João. Ligou o forno e esperou que ele esquentasse.

— Menina! Veja se o forno já está quente — ordenou.

Maria então teve uma ideia e disse:

— Como farei isso? Não sei…

— Menina tola! Veja que só vou ensinar uma vez!

Dizendo isso, a bruxa se inclinou dentro do forno para sentir seu calor. Maria não vacilou: empurrou a bruxa e fechou a porta do forno, passando o ferrolho para que ela não abrisse. Libertou correndo seu irmão, João, que a ajudou a segurar a porta do forno até que os gritos da bruxa parassem.

Como em um passe de mágica, a casa se transformou em uma linda
cabana, repleta de riquezas. Eram pedras preciosas, diamantes, pepitas de ouro, de prata e de bronze. João e Maria então encheram seus bolsos com o que conseguiram e fugiram dali.

Andaram por muito tempo sem rumo, até que, por sorte ou destino, viram ao longe o velho pai cansado trabalhando e a madrasta limpando umas pequenas espigas de milho. Maria não conteve sua alegria e gritou pelo pai, que não acreditou ao ver os filhos voltando. Tanto a esposa como o marido se arrependeram muito do que fizeram com as duas crianças, e desde o abandono suas vidas eram só tristeza.

Após se abraçarem, João tirou do bolso um punhado de jóias.

— Veja, pai!

E contaram toda a história. Todos temeram a bruxa, mas riram e comemoram a vitória do bem. Naquela noite, jantaram com fartura pela primeira vez desde… E foi assim por muito tempo naquela pequena cabana em que viveram felizes. Para sempre.