Pequenas reticências…

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Recontado pela nossa amiga e parceira Marcia Paganini

157609785Era uma vez um moleiro que deixou uma pobre herança a ser dividida entre os três filhos. Para o mais velho, tocou um moinho; o segundo ganhou um asno; e para o caçula coube um gato. Esse filho, ao receber algo que não lhe tinha serventia, ficou aborrecido.

O gato, que era um bicho muito esperto, disse ao rapaz:

— Não se aflija, meu amo! Dê-me um saco e um par de botas e verá que posso lhe ser útil.

O rapaz, espantado com um gato que falava, não tinha outra escolha senão dar-lhe um pouco de confiança.

O gato calçou as botas, meteu no saco umas alfaces e partiu para um bosque. Fez uma armadilha e capturou um coelho.

Dirigiu-se ao castelo do rei para dar prosseguimento a seu plano. Adentrou-se no salão real, fez uma reverência e disse:

— Trago comigo um tenro coelho, um presente de meu amo a Vossa Majestade.

— E quem é o seu amo? — perguntou o rei.

— O Marquês de Carabá — inventou o gato.

— Diga-lhe que agradeço tão apetitoso presente.

Dias depois, o gato capturou algumas perdizes e também levou-as de presente ao rei. E mais uma vez o rei recebeu o mimo e agradeceu.

Assim, por dois ou três meses, o gato continuou a levar ao rei caças em nome de seu amo: o Marquês de Carabá, que, a essa altura, já era famoso no castelo real.

Um dia, sabendo que o rei passearia pela margem do rio com sua filha, a princesa mais bela do mundo, o gato disse a seu amo para se banhar no rio só de ceroulas. Enquanto se banhava, o rei passou por ali e o gato pôs-se a gritar:

— Socorro! Socorro! Meu senhor está se afogando!

O rei, reconhecendo o gato, ordenou a seus guardas que fossem socorrer o Marquês de Carabá.

O gato se aproximou da carruagem e inventou ao rei que, enquanto seu amo se banhava, ladrões tinham roubado suas vestes.

O rei ordenou que fossem buscar um traje real para o marquês para fazerem um passeio. O gato, que seguia na frente, encontrou alguns camponeses que ceifavam num prado e lhes disse:

— Ei, vocês, se não disserem ao rei que este prado pertence ao Marquês de Carabá, sofrerão um enorme castigo.

O rei perguntou aos camponeses a quem pertencia o prado.

— Pertence ao senhor Marquês de Carabá — responderam, com medo do castigo.

O gato dizia a mesma coisa a todos que encontrava, deixando o rei pasmo com tanta riqueza que o marquês possuía.

Finalmente, aproximaram-se de um belo castelo que pertencia a um ogro muito rico e muito mal. O gato, que sabia sobre o ogro e seus poderes, pediu para ver-lhe, dizendo que nunca mais teria a honra de estar na presença de tão poderosa criatura.

Envaidecido, o ogro o recebeu. O gato continuou a bajulação:

— Disseram-me que você tem o poder de se transformar em qualquer animal, mas não acreditei.

— É verdade — respondeu o ogro bruscamente. — Para lhe provar, vou me transformar num leão.

O gato, apavorado com o leão, foi em um pulo parar no telhado. De lá, disse ao ogro:

— Disseram-me ainda que você também tem o dom de tomar a forma dos animais mais pequeninos, como um rato. Confesso que achei impossível.

— Impossível? — replicou o ogro. — Pois veja!

E no mesmo instante se transformou num ratinho. O gato deu o bote e o comeu.

Vendo o castelo adiante, o rei quis parar para conhecer quem morava naquela linda construção. O gato correu para frente do castelo e disse ao rei:

— Seja bem-vinda, Vossa Majestade, ao castelo do senhor Marquês de Carabá.

— Também este castelo lhe pertence?! — exclamou o rei, pasmo.

Entraram, então, e se puseram à mesa para comer. O rei, encantado com as qualidades do marquês e vendo as riquezas que possuía, disse-lhe:

— Você gostaria de receber a mão de minha filha em casamento?

— Se for do agrado da princesa — respondeu o rapaz —, ficaria honrado, Majestade!

Já apaixonada pelo rapaz, a princesa aceitou, e naquele mesmo dia se casaram, passando a viver felizes no castelo.

Quanto ao gato, o marquês o fez seu conselheiro.

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Era uma vez um menino muito sonhador que se chamava João. Ele morava com sua mãe viúva em uma pequena casa, muito pequena e modesta, perto do rio que cruzava um dos maiores reinos do mundo. João sempre se sentava à beira do rio, de onde conseguia ver o luxuoso castelo dos nobres, e pensava: “Por que existe tanta desigualdade no mundo?”

Com muita dificuldade a mãe de João sustentava seu filho lavando roupas para os vizinhos nas águas do rio em troca de poucas moedas de prata, enquanto o menino ajudava na pequena horta que mantinham no quintal e cuidava da vaquinha magra que tinham, a única riqueza que possuíam, além de um ao outro.

Certa manhã, João acordou e viu a mãe chorando na porta de casa, olhando para o horizonte.

— O que aconteceu, minha mãe? – perguntou o garoto.

— Este mês será pior que os outros, meu filho – lamentou a viúva. Só temos comida para amanhã. Depois, estamos na mão da sorte.

As lágrimas da mãe fizeram João sofrer mais do que quando sentia frio ou fome. Então o menino perguntou o que poderiam fazer para superar aquela dificuldade.

— A única saída – respondeu a mãe – é vendermos a vaquinha.

Aquelas palavras cortaram o coração de João, pois o menino havia crescido tendo a vaca como animal de estimação. Entretanto, ele sabia: não tinham outra saída. Então ele foi até o quintal, acariciou pela última vez sua companheira e saiu em direção à feira. De longe, a mãe gritou:

— Não aceite pouco por ela! Ela deve valer no mínimo dez moedas de ouro!

E João seguiu seu caminho em silêncio, triste pela atitude que teria que tomar.

Chegando à feira, João não encontrou ninguém que quisesse a vaquinha. Também, ela tão magrinha ela está! Parece doente, pobrezinha. Já estava quase desistindo e voltando quando apareceu um homem misterioso, vestido de negro e com um grande chapéu de nobre. Algo no olhar do homem encantou João, que não costumava acreditar em estranhos. Aproximando-se do menino, o homem disse:

— Está vendendo a vaca, não é?

— Sim, respondeu o menino.

— Quer trocá-la por feijões que valem mais que moedas?

— Feijões? Claro que não! Minha mãe e eu precisamos do dinheiro. Feijões não vão resolver nossa sorte.

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— Esses feijões vão, meu jovem – e mal havia acabado de dizer isso, o homem abriu a mão e João viu cinco feijões brilhantes. – Eles não são feijões comuns, como pode ver. Há algo de mágico neles.

Pensando que aquela oferta era melhor do que voltar sem nada, João aceitou a troca. Ao chegar em casa, porém, a mãe ficou furiosa. Como ele poderia ter sido tão inocente a ponto de trocar uma vaca por cinco feijões?!

Irritada e desesperada, a mãe pegou os feijões e jogou pela janela.

Chorou ficou triste por ter decepcionado a mãe e foi se deitar cedo naquela noite.

O sol ainda não havia nascido quando ele acordou pensando ter escutado um barulho no quintal. Ao abrir a janela, João ficou impressionado: havia crescido na horta um enorme, gigantesco pé de feijão que chegava até o alto das nuvens. Além delas, talvez. Mas até onde?

Antes da mãe acordar, João pegou um pouco de água e um pequeno pedaço de pão e decidiu subir para ver até onde o feijoeiro ia. E começou a subir.

Subiu, subiu, subiu. Subiu até se cansar. Já era perto do meio dia quando João começou a alcançar as primeiras nuvens. Comeu o pedaço de pão e continuou subindo.

Será que chegarei ao céu?, pensou o menino.

Ao chegar no topo do feijoeiro, João ficou maravilhado com o que viu: um enorme castelo sobre as nuvens, muito maior e mais luxuoso que o castelo do rei. Ele ainda estava boquiaberto com o castelo quando ouviu um enorme estrondo vindo lá de dentro.

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Nossa! Alguém vive ali!, pensou em voz alta.

João foi até a gigantesca porta e, devido ao seu minúsculo tamanho ali, conseguiu passar por baixo dela sem dificuldades. Foi quando o menino viu uma enorme mulher. Enorme não apenas porque ela era alta, mas porque ela era muito alta, enorme, mais de cem metros de altura, talvez.

João olhava encantado todo o castelo: o gigantesco fogão no canto da cozinha, o enorme armário de temperos, o monumental espelho na parede e, é claro, a maravilhosa e grande mesa, já pronta para o almoço.

Acho que consigo chegar até lá para beliscar alguma coisa. Estou faminto!, pensou João.
Corajoso, o menino foi com cuidado até a mesa e começou a escalar a toalha que chegava até o chão. Já lá em cima, sempre tomando cuidado para não ser visto pela mulher, João desfrutou das melhores (e maiores) guloseimas. Mordeu um queijo do tamanho de uma casa, comeu um pedaço de pão que parecia uma carruagem e um pedaço de brócolis que tinha o tamanho de uma árvore.

João só parou de comer quando sentiu o chão tremer. Olhou para a porta e viu o enorme homem que entrava por ela. Era o gigante, marido da mulher.

— Fá, Fé, Fi, Fó, Fum! Mau como eu não há nenhum! Mulher, traga minha galinha! – berrou o gigante.

Foi só então que João viu, no canto da sala, próxima da janela, uma gaiola de ouro. Dentro dela, uma galinha dormia. A mulher abriu a gaiola, tirou a galinha de lá e a entregou ao marido.

— Vamos, preguiçosa – disse o gigante para a galinha. É hora de botar um ovo!

Ainda com restos de sono nos olhos, a galinha fez um esforço e pimba! Botou um ovo, mas não um ovo comum: era um ovo de ouro.

Maravilhado, João viu quando o gigante pegou o ovo (que era mais ou menos do tamanho de uma melancia) e o colocou em um baú cheio de ovos de ouro. Foi então que o menino teve a ideia de levar alguns daqueles ovos para casa. Mas como levaria tanto peso, já que era tão pequeno ali?

Seria mais fácil levar a galinha, claro!, pensou.

Dito e feito: João esperou o gigante almoçar e adormecer. Quando ele já roncava e a mulher arrumava a mesa, João decidiu agir. Correu até a janela, abriu com cuidado a portinha da gaiola e tirou de lá a galinha, que novamente dormia. Com cautela, João atravessou a janela com a galinha nos ombros, mas de repente, quando já estava quase no meio do jardim, ela acordou e cacarejou.

Imediatamente o gigante acordou e, em um pulo, salto do sofá e saiu correndo do castelo dizendo:

— Fá, Fé, Fi, Fó, Fum! Mau como eu não há nenhum! Quem está levando minha galinha?

Correndo mais do que nunca, João atravessou o jardim, passou pelos portões e alcançou o pé de feijão. Começou a descê-lo, olhando vez ou outra para trás para ver se o gigante ainda vinha atrás dele. E lá estava ele, correndo todo desengonçado e berrando: “Fá, Fé, Fi, Fó, Fum! Mau como eu não há nenhum”. Logo o gigante também alcançou o feijoeiro e começou a descer.

Agora era uma questão de tempo para João ser pego pelo enorme homem. Mas não se conseguisse ser mais rápido. Então João desceu correndo e, ao chegar no chão, buscou no quintal um machado e, enquanto o gigante descia por ele, começou a cortar o feijoeiro.

Pá, pá, pá.

Cortou tanto e tão fundo que o feijoeiro não aguentou o peso do gigante que descia. Então a enorme planta tombou, derrubando o gigante do alto. Ele caiu próximo do rio, abrindo uma enorme cratera e ficando ali adormecido para sempre.

João então foi correndo abraçar a mãe.

— Meu filho, onde você esteve? O que aconteceu? O que é isso? – perguntou a mãe aflita.

— Calma, mãe. Vou te contar tudo com calma, mas basta saber que jamais passaremos fome outra vez.

Depois daquele dia, João e sua mãe viveram com conforto, sempre ajudando os mais necessitados. Vez ou outra João se perguntava o que havia acontecido com a esposa do gigante. Ele nunca soube que ela passou a viver bem mais tranquila, sem ser oprimida pelo malvado homem enorme e aproveitando o tesouro deixado no baú.

Com o tempo, uma fina e verde relva cobriu o corpo do gigante, fazendo brotar flores coloridas sobre ele. Logo seu corpo se transformou em uma montanha onde crianças brincavam sem medo do gigante que, conforme contava a lenda, ali dormia um sono eterno.

 

Foi assim:

Ele, tímido; ela, vívida

Ele, lúcido; ela, mágica

Ele, cômico; ela, trágica

Ele, lucro; ela, dívida

 

 

Ele, certeza; ela, dúvida

Ele, sílaba; ela, frase

Ele, único; ela, quase

Ele, bálsamo; ela, ferida

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Era uma vez um tempo em que os sonhos e desejos se realizavam como mágica, o mundo era repleto de reis e rainhas que governavam com justiça seus enormes reinos e tinham filhos corajosos e filhas mais lindas que as estrelas.

Certo rei e certa rainha tinham filhas muito belas. A caçula, porém, era a mais bela dentre todas. O reino desse rei ficava próximo a um grande bosque encantado, onde, diziam, viviam ogros enormes, fadas miudinhas e gnomos travessos. Nesse bosque, havia uma lagoa.

Em dias de verão, as princesas brincavam em volta dessa lagoa, pois ali o ar era fresco e puro. A caçula estava sempre com seu brinquedo favorito: uma bolota de ouro maciço, que, quando entendiada, a princesa jogava para o alto e pegava com a mesma mão.

Crédito: Cassia Naomi

Crédito: Cassia Naomi

Certo dia, estava a princesa jogando a bola de ouro para cima, quando um pássaro a assustou, fazendo com que ela deixasse a bolota cair na lagoa. Pobre princesa! Pôs-se logo a chorar pelo ocorrido, pois deu por perdido o seu brinquedo, já que a lagoa era funda e escura. Começou a chorar cada vez mais forte, e mais, e mais, tanto que ninguém era capaz de consolá-la.

De repente, ela ouve uma voz desconhecida:

— O que aconteceu com tão linda princesa?

Quando a princesa buscou o dono da voz, deu de cara com um sapo com a cabeça pra fora da lagoa.

— Ah, senhor sapo. Choro pela minha bolota de ouro que caiu na lagoa.

— Na lagoa? Então não tem porque chorar… Posso te ajudar a recuperá-la. Mas o que ganho com isso?

— O que quiser, querido sapo — respondeu a princesa precipitada. — Minhas joias, meus brinquedos, minha tiara. O que quiser…

Então o sapo, cheio de astúcia, respondeu:

— Não quero suas joias, nem seus brinquedos. E tampouco sua tiara. Quero sua companhia: promete que, se eu trazer sua bola de ouro, brinca todos os dias comigo, me põe para comer ao seu lado na mesa e me deixa comer no seu prato de ouro e dormir na sua cama macia?

— Claro que eu prometo! — disse ela.

Entretanto, quando respondeu a princesa pensou: “Sapo tolo, não sabe que não pode morar comigo em meu castelo!? Não é humano!”.

Mas nem acabou de ter esses pensamentos, a princesa viu o sapo desaparecer na lagoa. Pouco tempo depois, ele retornou com sua bola de ouro na boca, reluzente. A princesa a apanhou e correu para o castelo, pulando de alegria.

Não adiantou o sapo gritar para que ela o esperasse.

No dia seguinte, a princesa acordou e foi tomar seu café da manhã no salão real. Não havia tocado em seu mingau quando ouviu um barulho estranho vindo de fora: splash, ploc, splash, ploc. Quando o barulho parou, ela ouviu uma voz dizendo:

— Princesa, sou eu! O sapo da lagoa a quem você prometeu companhia. Abra a porta, por favor.

A moça se recusava a ir abrir a porta. Percebendo sua reação, o rei perguntou:

— O que é isso?

— Ah, papai — respondeu a princesa. — É um sapo da lagoa do bosque. Ele me ajudou ontem, recuperando minha bola de ouro, e me fez prometer que eu cuidaria dele. Achei que ele jamais chegaria até aqui. Entretanto… está aí, cobrando a promessa.

Para surpresa dela, o rei ordenou:

— O que se prometeu deve ser cumprido. Abram a porta!

O sapo então entrou, sentou-se ao lado dela na mesa e comeu do seu prato de ouro. A princesa, vendo aquilo, sentiu-se enjoada e não comeu mais nada.

— Estou satisfeito — disse o sapo. — Preciso descansar. O caminho da lagoa até aqui é longo para um sapo do meu tamanho. Por favor, princesa, prepara sua cama macia para mim?

Claro que a princesa recusou, mas o rei logo interveio:

— Não despreze hoje quem te ajudou ontem, minha filha. Vá e prepare a cama para ele.

Com um nojo enorme, a princesa apanhou o sapo e o levou para seu quarto. Arrumou sua cama, colocou o melhor lençou e deitou-se com ele.

O sapo então pediu:

  — Deixe-me deitar em seu travesseiro…

A princesa então se aborreceu. Apanhou o sapo sem nojo e sem medo e o arremessou contra a parede.

Ao cair no chão, o sapo já não era sapo, mas um lindo príncipe que havia sido enfeitiçado por uma bruxa. Apaixonado pela princesa, ele a pediu em casamento.

No dia seguinte, uma belíssima carruagem com dez cavalos veio buscar o príncipe. Guiada por Enrique, o escudeiro do príncipe, ela era toda enfeitada de ouro e pedras preciosas. Enrique era fiel, e havia ficado muito triste quando o seu amo foi amaldiçoado. Tanto que ele colocou, em volta do peito, três faixas de ferro para que, quando suspirasse de tristeza, se lembrasse do motivo.

Quando principe e princesa iam em direção ao novo reino, eles ouviam, ao longo do caminho, ferro se rompendo. Então o príncipe gritou:

— Enrique, a carruagem está se rompendo!

— Não, meu amo — respondeu o escudeiro. — São as faixas de ferro em meu peito, que agora não aguentam tamanha alegria em ver o senhor são e salvo.

Até chegar ao reino, ainda ouviram dois estalos. Mas não se preocuparam: eram as faixas de ferro caindo do peito de Enrique, porque o príncipe estava livre e feliz. E assim foi para todo o sempre.

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A Lenda do Paraíso Terrestre, de Daniel Munduruku

Há muito e muito tempo, a tribo da grande nação indígena Kaiapós habitava um mundo sem céu. Por isso, não existia também Sol, nem Lua, nem estrelas, cometas, arco-íris, pássaros. Aqueles habitantes se alimentavam apenas de mandioca e pequenos animais, mas nunca tinham visto, por exemplo, um peixe, pois não havia rios por ali. Tampouco comiam frutas, pois não havia florestas, sequer arbustos e pequenas moitas. Era um mundo vazio.

Um dia, um jovem índio estava caçando quando avistou sua presa: um tatuzinho amendrontado. Percebendo a presença do caçador, o animal fugiu, e quanto mais corria, mais o jovem corria atrás. Sem entender, ele viu que o pequeno tatu crescia a cada passo, se tornando um grande animal que, embora grande, continuava amendrontado.

Cansado de correr, já percebendo a proximidade do caçador, o grande tatu cavou rapidamente a terra seca e escura abaixo deles, abrindo um grande buraco, no qual desapareceu.

À beira da cova, o índio ficou observando para se certificar que o animal fugira mesmo. Não aguentando sua curiosidade, decidiu descer pelo buraco e, com surpresa, percebeu que ao final do caminho havia um ponto luminoso. Sem sinal do tatu, resolveu seguir aquele ponto de luz.

Por muitos anos, aquele jovem índio se lembraria do que viu quando chegou ao final do túnel. Viu aos poucos o ponto de luz se transformar em uma grande abertura, e um novo mundo se revelou: um mundo com um céu tão azul que os olhos acostumados com a escuridão ardiam; e um Sol tão luminoso que o índio temeu se queimar por um instante; e um lindo arco-íris, cujas cores estavam nas penas de algumas aves e nas asas de borboletas que enfeitavam o céu. Uma grande mata crescia nas margens de um grande rio, de onde pulavam peixes de vários tamanhos e cores. Perto dele, alguns animais caminhavam sem medo, como tartarugas, macacos, capivaras e préas.

O jovem índio ficou admirando aquele novo mundo, e notou que o Sol se movia, fugia dele, até desaparecer. A tristeza tomou conta do jovem, que pensou que tudo aquilo havia acabado com o Sol. Mas seu deslumbramento voltou assim que viu surgir no céu uma grande pedra branca, bem redonda e brilhante. Era a Lua que surgia com mais um milhão de estrelas que piscavam, e brilhavam, e iluminavam o céu e a terra. Algumas chegavam bem perto dele, como se fossem pequenos insetos luminosos.

Correndo mais rápido do que nunca, o índiou voltou à aldeia para contar sobre aquele novo mundo. O pajé, homem mais respeitado na tribo, autorizou que todos seguissem aquele caminho aberto pelo tatu. Os índios foram, um a um, descendo por uma longa corda até pisar no chão daquele que seria seu novo lar, o Mundo Novo.

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